A BICICLETA VERDE

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Wadjda e seu vizinho Abdullah em uma das cenas mais belas do filme

Sabe aquela looonga lista de livros a serem lidos e filmes a serem vistos? Também tenho uma que cresce a cada dia, mas ontem a preguiça me ajudou a riscar ao menos um filme que queria ver há muito tempo: O Sonho de Wadjda (2012), da saudita Haifaa Al Mansour. Só o fato de ter a bicicleta como um personagem, já me interessa. Mas este filme tem vários outros elementos que me encantam. O principal deles é que o filme é o primeiro feito por uma diretora (eu disse diretorA) da Arábia Saudita e todo filmado naquele país.

Ele conta a história de Wadjda, uma menina de 12 anos, alegre, que adora ouvir música, usa jeans, tênis, tem sempre o véu escorregando da sua cabeça e que um dia se encanta por uma bicicleta verde (eu já vi algumas vezes uma cenas dessas na vida real). Após ouvir um sonoro “não” da sua mãe, que explica que isso não é coisa para meninas, ela começa a fazer de um tudo para conseguir o dinheiro.

Achei bacana a forma sutil como o filme mostra a forte repressão aos direitos femininos que impera naquele país e, ao mesmo tempo, dá espaço a voz, aos sorrisos e as formas dessas mulheres quando estão em ambientes fechados. Na Arábia Saudita as mulheres precisam cobrir todo o rosto para sair na rua. Fiquei pensando durante o filme, com uma boa dose de tristeza,  que no fundo são as mulheres as maiores mantenedoras desses absurdos. Seja na figura das mães, das professoras ou das amigas. Dá para imaginar o sufoco que a menina passou para conseguir dar algumas pedalas nessa vida.

Mas bacana mesmo é saber que este filme pode ter inspirado uma grande conquista das moças da Arábia Saudita. Em abril de 2013, um ano depois de o filme ser lançado e ter percorrido alguns dos principais festivais de cinema, elas ganharam o direito de andar de bicicleta naquele país, ainda que cheio de regras absurdas. Elas só podem usar a bicicleta como lazer e jamais como meio de transporte, só podem pedalar se estiverem acompanhadas de um homem e com o rosto e o corpo inteiramente cobertos. Na boa, mas este último até parece pegadinha, pois pedalar com os olhos tampados e aquele monte de pano é até perigoso!

É só um passinho, mas eu desejo que bem logo as moças de lá possam pedalar por aí sentindo a delícia do vento nos cabelos e que a bicicleta, mais uma vez, ajuda a revolucionar a condição feminina.

Waad Mohammed, que vive Wadjda, e a diretora Haifaa Al Mansour levaram a bicicleta verde para o tapete vermelho do Festival de Veneza de 2012. Achei isso a coisa mais querida do mundo

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Aqui está o link do filme, mas só achei versão dublada 🙁